Copinho de leite



Tenho-me sentido um copo de leite, bastante semelhante a esse que acabo de beber durante o lanche desta tarde. Não me refiro à clara falta de ação da melanina, neste verão em que a minha pele continua sem tomar qualquer contacto com as areias e o sal de qualquer praia exibida nesta nossa enorme costa portuguesa, a água insossa dos rios mais próximos da minha terra, ou até mesmo o cloro presente nas piscinas. Na verdade, apenas pretendo que visualizem a palidez do líquido, que tanto reflete as páginas dos muitos cadernos que uso normalmente para escrever. Justificando-se esta abstinência, já que, da mesma forma, a minha mente aparenta ela própria encontrar-se ausente de ideias merecedoras de serem transcritas para o papel.
Contudo, no meio da mistura homogénea branca encontram-se cristais de açúcar dissolvidos, uma dessas marotices pouco saudáveis que faço para o leite acabado de sair do pacote se tornar mais atrativo (apenas para as minhas papilas gustativas, visto que a cor da bebida se mantém inconfundivelmente inalterada). De maneira análoga, também pressinto a existência de certos pensamentos relevantes, estes simplesmente vagueiam dispersos, no meio da amálgama de questões que povoam a consciência que tenho, devido a toda a agitação momentânea.
Posto isto, há um truque, digamos, infalível, que permite obter uma solução para ambos os problemas. Ora, tal como se consegue reconhecer novamente o açúcar no fundo do copo desde que se espere o tempo necessário para que este se acomode, também será conveniente conferir às minhas ideias a oportunidade para que estas assentem, ou como tipicamente se fraseia, deixar assentar as ideias, para que mais facilmente seja possível discerni-las.
Até lá, vou comendo as torradas que já vão arrefecendo.

Agosto 2018

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