Comboios





Há algo especial em viagens de comboio. Ver a estação a afastar-se, com um regresso em breve prometido, o reflexo do livro na janela, a paisagem mais próxima de nós a passar a correr e a mais afastada a ir com mais calma, acompanhando-nos devagarinho. O céu permanece imutável, salvo algumas nuvens que deslizam pelo vento superior. E nós presos num jato a grande velocidade, mas que a mim me parece quieto, deixando-se caminhar por todas aquelas imagens fragmentadas para as quais a janela nos dá vista. O barulho também esse indica o movimento incessante, como se as carruagens fossem movidas pela vontade de regressar às origens. Talvez por isso os acidentes aconteçam, porque a vontade de ir começa a ser impossível de conter pelas frágeis linhas que percorremos, linhas essas que são as nossas guias, levando-nos ao destino pelo caminho certo e seguro. Também as curvas são problemáticas, em excesso de velocidade ou vontade, o impulso é grande e um descarrilamento pode acontecer. Por isso, eu gosto dos regionais: são calmos, dá para apreciar a vista e chego igualmente ao ponto onde quero. No entanto, não gosto de esperar e a velocidade agrada-me, mas o medo de perder o rumo e embater em paredes leva-me a querer abrandar e tomar atenção aos pormenores.

Maio 2017

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