"If something burns your soul with purpose and desire, it's your duty to be reduced to ashes by it. Any other form of existence will be yet another dull book in the library of life." Charles Bukowski
Escrever em português, inglês ou chinês vai tudo dar ao mesmo. O que importa é o conteúdo, o que queres dizer, o assunto, o tema, o que te leva a escrever, o que escreves. O que menos importa é a maneira como o escreves, se está em prosa ou poesia, se são poucas ou muitas palavras, se são palavras simples ou complexas. Claro que há uma beleza inerente num texto bem formulado, mas que nunca seja a vontade de atingir essa beleza aquilo que te prende a não soltar as palavras no papel.
No meu caso, quanto mais liberdade lhes dou, mais facilmente elas se encaixam umas nas outras. O que custa é começar, encontrar o ponto inicial, a nascente, pois, a partir daí, elas fluem. Às vezes a corrente é mais forte, com uma maior densidade, outras é mais fraca, mais simples, mais vagarosa, mas não deixa por isso de ter qualidade, aliás, percebe-se a diferença entre os dois casos, o que torna todo o processo mais interessante.
Posto isto, apercebi-me de que gosto de escrever sobre "escrever" e acho que o faço porque eu gosto de escrever sobre aquilo que gosto e descobri que o que eu realmente gosto é de escrever. Meter as palavras no papel é fácil para mim (mais fácil do que qualquer outra coisa), porque tenho tempo para pensar nelas; sinto-as a formarem-se e posteriormente a correrem em mim. Desaguam numa folha, em qualquer local ou hora, isso não me cabe a mim decidir, apenas preciso de ter papel perto de mim para lhes dar vazão. Há alguns dias de enxurrada, em que isso acontece mais facilmente do que outros, mas nos últimos tempos torna-se cada vez mais simples fazê-lo, o que me deixa simultaneamente contente e com medo: fico feliz por estar nesta altura de grande afluência de palavras, contudo tenho receio que os tempos secos voltem e a nascente seque. Suponho que isso vá acontecer, o fim é sempre inevitável e, para além disso, já houve um tempo de ausência de palavras, pelo que a escassez é irremediável, ainda assim deixo-me ir eu própria na corrente, tentando esquecer esse acontecimento, porque, sendo ele imutável, penso que não vale muito a pena perder muito tempo a pensar nele.
Assim, rodeio-me de palavras enquanto posso, enquanto tenho essa capacidade, pois quanto mais escrever antes que elas se esgotem, mais terei para recordar destes tempos de abundância e menos saudades terei de conseguir inundar páginas atrás de páginas.
Beatriz Santos, com a colaboração de Beatriz Vieite
(04/06/2017)



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