Formigueiro cerebral


"You get so alone at times that it just makes sense." Charles Bukowski

Tenho um formigueiro no cérebro que me impede de pensar nas coisas boas e me obriga a focar-me no que é mau. Ao fazê-lo, o meu corpo paralisa e tenho de me forçar a respirar, pois a respiração desacelera, em contraste com a minha mente que entra num estado de alta velocidade, não deixando espaço para que mais nada funcione corretamente. A visão fica turva, como se estivesse prestes a desmaiar, sinto a boca seca e o meu estômago às voltas. Caso não estivesse já habituada a que isto acontecesse, acharia esta sensação tão estranha que entraria em pânico, com medo do que poderia estar a causar esta reação. No entanto, após isto (não sei o que é, é só algo sem nome) acontecer algumas vezes, concluí que se devia a excesso de pensamentos, dúvidas e problemas presos na minha mente, todos a chamar por mim, simultaneamente, para lhes dar atenção, porque todos pensam que são importantes e que têm o direito de me atormentar assim. Quando isto acontecia antes, todos eles se empurravam até aos meus olhos, fazendo força para saírem, e eu, sem capacidade de os controlar e manter dentro de mim, acabava por me limitar a deixá-los tomarem a sua forma final, inútil e húmida, molhando-me as bochechas, a almofada e tudo o que encontrassem. Mas agora, encontrei uma maneira de os domesticar, de os prender, não em mim, mas em palavras, frases, textos… Comecei a deixar os meus dedos tremelicantes correrem sobre o teclado, sem medo do que seria o resultado final, deixando-os apenas saltar de tecla em tecla, escrevendo tudo o que me aparecia na mente. Em alturas destas, já reparei que os pensamentos que atravessam primeiro a meta entre o meu cérebro e a folha, os primeiros a ganhar a forma de letras, são os pensamentos maus, os que me chateiam mais, que me irritam porque há dias em que não se calam, fazendo-me ficar frustrada com a sua má educação. São os mais cáusticos, mais rebeldes, levando-me quase ao desespero nestes momentos em que tenho mesmo de lidar com eles, pois perdi a capacidade de os ignorar…
Já foram! Sei-o porque as palavras já não aparecem tão facilmente. Sinto o meu corpo voltar ao normal e a minha mente a desacelerar. Agora consigo pensar em coisas boas também, naquelas que me deixam bem e que se haviam escondido por momentos, com medo da impetuosidade dos seus opostos. Conto-os, os pensamentos bons, são muitos, cada vez mais, incontáveis, formando um céu de estrelas brilhantes na minha mente. Isto, tudo isto, o que quer que isto seja, vale a pena!
Beatriz Santos
(01/06/2017)

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